Apontamentos sobre a investigação e a “vida real” por um tipo que sabe tão pouco sobre uma como sobre a outra

A investigação faz parte de um processo que, para qualquer sociedade sã, deve ser um fim em si mesmo: o aumento do conhecimento. Por isso, qualquer análise económica desta actividade deverá ter isto em conta, na minha opinião. Caso contrário aceitamos que vivemos para consumir e que norteamos toda as nossas actividades para isso. Na minha óptica, consumimos para viver e vivemos para conhecer, por esta ordem.

Ao contrário do que o Ministro da Economia afirma, não existe qualquer desfasamento entre a investigação que se faz nas universidades e a “vida real”. Quando muito, existe o contrário. Isto é, as universidades e centros de investigação, se estiverem a fazer bem o seu trabalho, são os primeiros a conhecer novas coisas acerca da vida e do mundo real. A “vida real” é que, provavelmente, não acompanha o ritmo da investigação, o que é normal num país com pouco capital e baixas perspectivas de crescimento. Mas daí não se pode tirar a ilação que a investigação não serve o seu propósito ou que os fundos a ela destinados estão a ser mal aplicados. Muito menos se pode concluir que as universidades devem começar a trabalhar para os objectivos da “vida real”, isto é, do mercado e das empresas.

Primeiro, porque as universidades têm uma missão bastante própria, mesmo numa análise meramente económica. Hoje em dia as universidades competem globalmente para ganhar prestígio, não só através da qualidade do seu ensino, mas sobretudo pela qualidade da sua investigação. Para que as universidades portuguesas estejam bem posicionadas nas redes de conhecimento globais tem que haver investimento em investigação de base. É isso que lhes possibilita atrair estudantes e investigadores de todo o mundo, isto é, atrair conhecimento. Isto gera valor económico por si só, ainda que muito não seja apropriável pelas universidades sob a forma de receitas. Se as universidades começarem a agir numa lógica de trabalhar para os objectivos das empresas nacionais, estarão a abdicar da sua função de produtoras de conhecimento, e de participar nesta busca global, para servir a função de aplicar o conhecimento já existente.

Segundo, porque o conhecimento criado nas universidades é o combustível de que vive a sociedade. Isto aplica-se tanto à investigação como ao ensino. Os programas das universidades não devem ser formatados para a “vida real”, mas para que as pessoas tenham capacidades para entendê-la de forma crítica e acrescentar-lhe alguma coisa. Se a ideia é formar para uma tarefa ou para uma função, uma escola profissional serve. E face ao carácter instável e galopante da realidade do mundo moderno, qualquer conhecimento demasiado contextual se torna imediatamente obsoleto. São precisas capacidades para interpretar as mudanças e reagir, ou seja, capacidade de conhecer e produzir conhecimento.

Cortar o investimento público no aumento do conhecimento é um erro. O conhecimento é um bem público porque uma vez produzido está ao dispor de qualquer um para o utilizar da forma que bem entender. Não estou a falar do conhecimento patenteável que é produzido pela investigação aplicada, mas daquele conhecimento mais abstracto e que é, não poucas vezes, visto como inútil. O problema é que o primeiro tipo será sempre financiado pelo sector privado. Já o segundo, não sendo economicamente viável para nenhum agente privado, tenderá a desaparecer. Para além disso, os cortes em bolsas de doutoramento e pós-doutoramento significam que cada vez haverá menos capacidade de o país manter pessoas cuja actividade profissional é a produção de conhecimento.

Claro que há constrangimentos orçamentais, e todos temos que fazer sacrifícios. Mas podemos estar a fazer alguns sacrifícios em prol de coisa nenhuma quando estamos a impedir o desenvolvimento do país a longo prazo. A semana passada foi noticiado com muita pompa o facto de um investigador receber uma bolsa de dois milhões de euros para financiar a sua actividade durante dois anos. Atente-se que o dinheiro não irá parar ao bolso do investigador, terá que financiar a investigação e remunerar a equipa que o acompanha. Quando sabemos que nesses dois anos Jorge Jesus ganhará cerca de três milhões de euros, onde está o exagero? O facto de uma quantia gerar espanto e a outra não devia-nos fazer repensar que tipo de sociedade estamos a criar.

O Panteão Nacional

detail (1)É curiosa a forma como as grandes coisas e as coisas corriqueiras andam constantemente de mãos dadas. A morte é um caso paradigmático. É a questão mais inquietante e misteriosa do ser humano e sobre ela se criaram algumas das maiores obras da humanidade. No entanto, quando alguém morre, há uma quantidade enorme de preocupações de ordem prática que têm que ser consideradas e que contrastam com a dimensão simbólica do acontecimento. Este é o tema principal da série Sete Palmos de Terra, que retrata o quotidiano de uma funerária enquanto explora as inquietações dos personagens perante a finitude da sua existência, com que têm que lidar diariamente. Por coincidência, ou talvez não, comecei a ver esta série na semana em que o espaço televisivo esteve obsessivamente ocupado pelas transmissões do funeral de Eusébio da Silva Ferreira, o Pantera Negra.

Tentei distanciar a minha atenção destes acontecimentos o máximo que pude. Afinal, se a sua existência não me tocou particularmente, seria, para além de pouco interessante, muito pouco ético da minha parte embarcar nesse voyeurismo com que as televisões nos aliciam. Mas, como sempre, lateralmente surgiu uma questão interessante associada a tudo isto. A questão é se deve ou não Eusébio ir para o Panteão Nacional. Melhor ainda, que requisitos deve alguém reunir para ter a honra de estar sepultado no Panteão Nacional?

Antes de mais, há ainda outra questão que é saber exactamente o que é o Panteão Nacional. De acordo com a página oficial, é um monumento nacional que acolhe “(…)os túmulos de grandes vultos da história portuguesa”. Além dos túmulos acolhe também os cenotáfios, uma espécie de memorial, de heróis da história de Portugal, como o Infante D. Henrique ou Pedro Álvares Cabral. Entre os sepultados no Panteão Nacional contam-se quatro Presidentes da República, quatro escritores, uma fadista e o General Humberto Delgado. Ainda, este ano decidiu-se a trasladação de Sophia de Mello Breyner, pelo que os escritores constituem a classe mais propícia a gerar grandes vultos, seguidos pelos Presidentes da República. Ficarão então: Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro, João de Deus, Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais, Teófilo Braga, Humberto Delgado, Amália Rodrigues e Sophia de Mello Breyner.

Não é fácil vislumbrar que requisitos se exigem para que um português seja sepultado no Panteão Nacional, mas para já não me parece que a popularidade seja muito importante. Não me parece que Sidónio Pais ou Óscar Carmona tenham um lugar muito espaçoso na maioria dos corações do povo lusitano. Ser escritor é, como já vimos, uma grande vantagem, mas ser político é-o ainda mais. Se contarmos Almeida Garrett como político, somando aos quatro presidentes, e a Humberto Delgado, temos seis. Por isso, ser escritor e político é o ideal (boas notícias para Manuel Alegre, pena não ter ganho umas presidenciais…). Quanto a desportistas, Eusébio será o primeiro, se o for. No entanto, se Amália foi a primeira figura das artes não literárias, poderá Eusébio tornar-se o primeiro desportista do Panteão. O que levanta questões interessantes como a de saber se Carlos Lopes, por exemplo, não será igualmente merecedor desta honra.

Acima de tudo, parece-me que o termo “vulto da história portuguesa” é um pouco vago. Sabemos que Camões é um, Pessoa é outro; o Infante D. Henrique sê-lo-à, sem dúvida. Ainda muitos outros se poderiam acrescentar, o Padre António Vieira, Amadeo de Souza Cardoso, Aristides de Sousa Mendes, etc. Qualquer pessoa com dois dedos de testa consegue puxar pela cabeça e lembrar-se de uma lista de vultos substancialmente melhor do que aquela que constitui o Panteão Nacional. Se Eusébio deve fazer parte desta lista de vultos da História de Portugal parece-me uma discussão absolutamente inócua. Se comparar com Amália, sim. Se comparar com Humberto Delgado, obviamente não (pun intended). Mas, se o valor que damos a insignificâncias como onde fica o que sobra da nossa passagem por este mundo é meramente simbólico, o Panteão Nacional é absolutamente irrelevante.

O Prédio: uma história verídica

Numa rua do centro histórico de uma cidade portuguesa havia um prédio bem antigo, com muita história. Nesse prédio viviam pessoas, como em todos os prédios, que nomeavam uma administrador de condomínio que ostentava o título com alguma pompa, chamemos-lhe senhor P.. O senhor P. gosta bastante do cargo que ocupa, fá-lo sentir-se importante junto da comunidade de moradores do prédio. Como não podia deixar de ser, este prédio também tem um porteiro, o senhor E., que conhece bastante bem os problemas do edifício, faz uns arranjos, e alerta o senhor P. acerca das intervenções necessárias à manutenção da integridade do prédio.

Há vários anos que vai sendo comum dizer-se que o prédio precisa urgentemente de uma intervenção no sistema eléctrico, que está visivelmente obsoleto. Todos os anos isto é referido nas reuniões de condóminos e o senhor E. alerta constantemente para este problema, «Qualquer dia há aqui uma desgraça!», costuma dizer. No entanto, o senhor P. não vê com bons olhos a ideia de contratar um electricista para tratar do problema. É que ainda está a pagar a pintura da fachada, obra que lhe garantiu a simpatia dos moradores e a sua manutenção no cargo, bem como uns pequenos “melhoramentos” no andar em que reside. Para conseguir a verba para contratar o electricista, o senhor P. teria que aumentar as taxas pagas pelos moradores ou reduzir algumas despesas como, por exemplo, as horas de trabalho do jardineiro. Qualquer uma das opções colocaria em causa a posição do senhor P. e os seus resultados nas próximas eleições. Por um lado, nenhum morador aceitaria pagar uma taxa maior, por outro, nenhum aceitaria uma redução do zelo com que é tratado o jardim do prédio, motivo de orgulho para todos os habitantes do prédio.

Assim, a obra ia-se adiando. Até que um dia o inevitável aconteceu: um curto-circuito provocou um incêndio no prédio! Os moradores entraram em pânico e chamaram de imediato o senhor P. e o senhor E.. Todos diziam que era urgente chamar os bombeiros ou o prédio iria arder completamente, enquanto culpavam o senhor P. por não ter prosseguido com as obras necessárias para prevenir o desastre. O senhor E. repetia: «eu bem avisei!». Após uma reunião em privado o senhor P. e o senhor E. decidiram resolver o problema: despediram o jardineiro e contrataram o melhor electricista da cidade. Os moradores, estupefactos, questionaram, «então e ninguém chama os bombeiros?», ao que o senhor E., que nas horas vagas fazia uns biscates no Banco Central Europeu, respondeu: «os incêndios apagam-se sempre por si, o importante é chamar um bom electricista para que, finalmente, possamos ter um prédio seguro!». Quando finalmente chegaram os bombeiros já quase tudo tinha ardido, salvaram-se os prédios do senhor P. e do senhor E., por sorte.

Crise? Venha a próxima

Calculo que tenha sido 11 de Setembro de 2001 a data que marcou, para as pessoas da minha idade, o despertar para existência de um mundo fora da simplicidade infantil que nos era familiar. Um mundo complexo, de conflitos morais inquietantes e difíceis de compatibilizar com a vida relativamente confortável que até aí vivíamos. Antes, durante a infância, conhecíamos a fome em África, pela televisão, mas havia uma explicação simples que resolvia o problema: eles eram pobres e nós, de vez em quando, mandávamos para lá comida, fazíamos o que podíamos; ouvíamos falar da Bósnia, dos bombardeamentos dos americanos no Iraque e outros conflitos, mas achávamos que era natural haver guerras, se os nossos livros de história estavam cheios delas, talvez fosse mais um facto da vida; conhecemos o drama de Timor, mas isso resolveu-se, e de uma forma bastante poética se bem me lembro.

Mas quando dois aviões embateram nas Torres Gémeas do World Trade Center, eram as pessoas que nós víamos nos filmes, não eram os desgraçados que sempre o tinham sido, eram pessoas que até há umas horas viviam tão pacatamente como nós, no primeiro mundo. Para além disso, estávamos a entrar naquela idade em que as respostas fáceis já não servem, em que já não confiamos na autoridade da idade para nos dar explicações. Neste momento tivemos que aprender a lidar com questões complicadas de um mundo complicado, os porquês de uma realidade absurda; uma contradição absurda entre um mundo onde a tecnologia ditava uma vida cada vez mais confortável e fascinante e outro em que pessoas punham fim à sua vida e às de milhares de semelhantes por motivos incompreensíveis. Não por interesse individual como estávamos habituados. Desta vez o absurdo batia-nos à porta.

E é engraçado como, a partir daí, tudo o que se passava entrava numa lógica apocalíptica de crise, pavor, fome, peste e guerra. Foi por essa altura que entrou o governo de Durão Barroso, o “país de tanga”, a palavra “défice” e os primeiros cortes orçamentais da Manuela Ferreira Leite. Recessão, desemprego, sempre a crise. Crise ao almoço, crise ao jantar. Nas aulas mais propícias a isso discutiam-se estas coisas, tudo muito “em ambiente de sala de aula”, porque nós tínhamos que despertar para isto, tínhamos que estar preparados, não é? Que isto para nós não ia ser fácil.

E veio a guerra, no Afeganistão e no Iraque, e o petróleo e a gasolina em indomável cavalgada. E agora, agora sim, é que estávamos mesmo em crise. Rasgávamos as vestes, ora contra o Bush, ora contra o Bin Laden, ora contra o Barroso, o Santana Lopes ou o Sócrates. Sempre numa rotineira decadência. Não por acaso, nesta década o grande fenómeno da cultura juvenil foi o Rap: o Sam the Kid, o Chullage, o Valete e mais um punhado encaixavam que nem uma luva no Zeitgeist desta entrada a pés juntos no século XXI. Nos leitores de CD portáteis, ou mini-disc para os mais arrojados, ouviam-se nas músicas descarregadas do Napster ou do Kazaa, com internet de 128kbs, uns tipos a falar de coisas que nem a televisão transmitia: da corrupção, da pobreza, dos problemas sociais. A realidade crua e dura chegava aos jovens da classe média via batidas sincopadas e rimas, e a crise. Sempre a crise.

Inevitavelmente veio uma crise ainda maior. Tão imprevisível e tão absurda como as precedentes, a pior desde a Grande Depressão. O subprime que rebentou com o Lehman Brothers, os americanos que não conseguiam pagar as casas, que os bancos tomavam e depois não conseguiam vender. Casas que ficavam vazias, nos balanços dos bancos, e pessoas que iam viver para debaixo da ponte. E de alguma forma isso veio-nos cair em cima, porque cai sempre.  E veio outra, por causa dessa e a somar-se a essa, o Euro, os juros e a Troika. E agora esta é que é a verdadeira, o Big One. Mais desemprego, mais impostos, mais cortes. Até à próxima, que isto nunca se sabe.

Desde que me lembro de ser gente que sabe que é gente, há crise. E cada uma é pior que a anterior. A minha geração ouve da anterior o mesmo de sempre: que para nós é que isto está complicado, que vai sempre piorar, que não vamos ser capazes. No entanto, lá fomos fazendo os nossos cursos, os nossos mestrados e doutoramentos, as nossas start-ups, ganhando os nossos prémios e reconhecimento internacional. Apesar da crise da educação, de os nossos 16´s, 17’s e 18’s não serem nada comparados com os de antigamente. De as nossas licenciaturas, mestrados e doutoramentos não valerem nada. Apesar de não lermos e não termos cultura. Lá fomos fazendo coisas que os que vieram antes não fizeram.

Eu não alinho com os que dizem que a nossa geração é mais fustigada do que as anteriores. Não foi, não tivemos uma guerra para combater, muito poucos de nós passaram fome ou grandes agruras, tivemos um horizonte de oportunidades muito maior do que o dos nossos pais ou avós, tivemos Internet e Ryanair . Mas tivemos que fazer sentido de um mundo que cada vez parece ter menos. E fazemos o que fazemos, e vamos cada vez mais longe, num ambiente que nos diz todos os dias que não vamos conseguir, que não vale a pena e que tudo vai piorar. Vamos trepando uma escada que vai desabando por baixo dos nossos pés, com uma nova crise a cada esquina. Mas somos mais duros que a realidade. E que venha a próxima crise, que nós comemos disso ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar.

Where have you gone, Joe DiMaggio?

EmE1967,SnaLbandaIsonoraNdoDfilmeA“TheMGraduate”Tde!Mike Nichols, o mundo conhecia pela primeira vez a canção “Mrs. Robinson” pelas vozes de Simon & Garfunkel. Um ano depois era lançado o melhor álbum da dupla, um dos melhores do século, “Bookends”, contendo a mesma canção. Nela Simon inscreveu uma enigmática referência a Joe DiMaggio – “Sitting on a sofa on a Sunday afternoon/ Going to the candidates debate/ Laugh about it, shout about it/ When you’ve got to choose/ Anyway you look at it you loose/ Where have you gone, Joe DiMaggio/ Our nation turns its lonely eyes to you”. Este é o verso mais poderoso da canção, na minha opinião, porque encerra em si um sentimento muito particular. Durante muito tempo não percebi o que Paul Simon queria dizer com isto.

A explicação, dada mais tarde por Simon, é o facto de DiMaggio representar uma forma de ser, uma conduta, que o autor não via nas grandes figuras do seu tempo. DiMaggio, bem como Eleanor Roosevelt a quem a canção se dirigia originalmente, representa a integridade de outros tempos em contraste com o que observava numa sociedade moralmente decadente. A nação encontrava-se, na imagem de Simon, perdida e solitária, em busca do DiMaggio, isto é, daquilo que DiMaggio representa, alguém com virtude que possa servir de referência moral. Um herói, não no sentido salvífico, mas num sentido simbólico de alguém que representa uma certa forma de agir, numa palavra: integridade.

Ramalho Eanes 3Ao ler as notícias da homenagem que irá ser feita amanhã ao General Ramalho Eanes, recordei-me instantaneamente daquele verso. Vivemos um momento em que é especialmente difícil encontrar boas referências no espaço público. As notícias só nos trazem casos de má conduta, oportunismo, corrupção e incapacidade de fazer a coisa certa. Num contexto destes, a nossa nação também se vê impelida a dirigir o seu olhar solitário para figuras com a de Ramalho Eanes. Alguém que cumpriu as suas funções com zelo, recusando colher quaisquer benefícios indevidos da sua actividade cívica; alguém que recusou uma promoção a marechal por questões éticas; alguém que prescindiu de cerca de um milhão de euros em retroactivos que lhe eram devidos pelo Estado, pela sua reforma enquanto General. Este tipo de conduta não é comum nos tempos que correm. Sim, é o que qualquer um devia fazer, é o mínimo, o facto de não se ser absolutamente desonesto não devia ser homenageado, devia ser normal. Mas num momento em que o que deveria ser excepção é a regra, devemos relevar a excepção que deveria ser regra.

É absolutamente necessário que haja heróis. Num país em que se aprende desde cedo, com a cábula e o copianço, que a vida é mais fácil para quem contorna as regras; em que acontece isto; em que fugir às obrigações compensa; é necessário que alguém aponte um caminho diferente. Alguém que represente o cidadão comum que, em vez de enaltecer ou admirar a esperteza saloia, a chico-espertice, despreza esse tipo de conduta e não inveja um cêntimo ganho com recurso à desonestidade. Nada disto tem a ver com messianismo, mas sim com a necessidade de se dar sentido à forma como agimos em sociedade. Não é uma solução, não é uma receita para resolver nada e não deve ser confundida com isso. Mas é uma questão de apontar um caminho, de indicar um exemplo e de lembrar que há escolha, e que o caminho mais fácil não é inevitável. É uma questão de decência.

“The hero allows us to measure ourselves on the goodness scale: O.K., I’m not Mother Teresa, but hey, I’m no Jeffrey Dahmer. Better keep trying in the eyes of God.” – Paul Simon, 1999

European Echoes

European_flag_in_Karlskrona_2011Quando pensamos sobre a crise financeira portuguesa, a grande verdade a que chegamos é que a sua solução não depende da esfera de decisão nacional. Isto é verdade há muito tempo, mas só agora começou a doer a sério. Inevitavelmente, se circunscrevermos a nossa observação e participação política ao contexto nacional, há muito poucas opções de política a tomar. E é isto, mais do que a incompetência dos políticos, as deficiências do sistema político ou o desinteresse dos cidadãos, que está a tornar a política numa coisa desinteressante e inconsequente. Porque, neste momento, as opções que estão ao nosso alcance são tão drásticas que deixam de ser opções, mas uma espécie de Doomsday Device.

É comum referir-se que a entrada no euro retirou da esfera nacional a política monetária e cambial, deixando apenas a independência na gestão da política orçamental. Mas mesmo a independência orçamental foi fortemente restringida. Não é só o facto de se ter que cumprir com os critérios de Maastricht e do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que obrigam à manutenção de um défice não superior a 3% e  de uma dívida pública inferior a 60%, o problema é mais profundo que isso. A crise veio mostrar que estes critérios serviram de muito pouco, e algo mais importante se revelou.

É que a mobilidade de capitais, que foi aumentada pela criação do euro, tornou impossível a gestão nacional de uma crise de dívida. Porque qualquer investidor pode, ao mínimo problema num determinado país, precaver-se retirando fundos desse país e aplicando noutro mais “seguro”, sempre na mesma moeda, sem qualquer risco cambial. Isto precipitou a crise do euro, e mesmo países como a Irlanda ou a Espanha, que acumularam excedentes orçamentais nos anos precedentes à crise, não conseguiram conter a massiva retirada de capitais aquando do pânico instalado nos mercados financeiros, por causa de problemas no seu sector bancário. Isto torna impossível um país usar a política orçamental de forma contra-cíclica, na verdade torna a política pró-cíclica, porque os Estados têm que encolher o seu orçamento ao mesmo tempo que o sector privado o está a fazer. Além disso, tornam-se dependentes de entidades externas que os obrigam a tomar opções de política que nem sempre estão relacionadas com a sua capacidade de servir a dívida. E aqui, a discussão não pode ser nacional, porque para os governos de países que sofrem uma fuga de capitais deste género não há outra hipótese senão fazer austeridade, simplesmente não existem meios financeiros para fazer outra coisa.

Assim, a união económica e monetária retirou da esfera nacional praticamente toda a gestão macroeconómica. E por isso as duas grandes opções são, ou aceitar e ficar, ou abandonar, sendo o grande consenso na generalidade dos países o “ficar”, que se distribui pelos grandes partidos com algumas subtilezas. Porque estes poderes, transferidos para a esfera europeia, não foram acompanhados por nenhum processo de democratização das entidades que os passaram a representar. Mais do que isso, este processo esvaziou o poder dos estados-nação para o substituir por coisa nenhuma! Neste momento, as instituições mais poderosas para a generalidade dos países da zona-euro são os mercados financeiros, a Alemanha, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, por esta ordem. A política nacional resume-se à discussão de quem cumpre melhor ou quem consegue aproveitar melhor os fundos estruturais e não existe uma representação supranacional europeia que equilibre o jogo e devolva a escolha aos cidadãos. Assim as pessoas divorciam-se da política, porque ela, de facto, já não lhes serve de nada.

Finalizando, e para esclarecer. A minha opinião é que o Euro foi bom para a Europa e a construção europeia é algo a preservar. Apesar dos muitos defeitos que tem, tem a grande qualidade de existir, porque a sua inexistência só agravaria os problemas com que nos deparamos. Mas é preciso que muita coisa mude, é preciso que a liberalização dos movimentos de pessoas e capitais seja preservada, mas que não ponha em causa as escolhas legítimas dos cidadãos europeus, para que possamos tirar o máximo benefício desta realidade. Para isso é necessário rever as formas de representação política e de governação da Europa. Criar formas de governação supranacional como a união bancária e a união orçamental, que permitam que a política europeia dê resposta a problemas que não são mais nacionais, e criar formas de garantir que essa governação é escrutinada democraticamente pelos cidadãos europeus. Só assim o modelo social europeu pode resistir às transformações impostas pela globalização, recuperando a sua posição enquanto exemplo de liberdade, bem-estar social e vigor económico.

Aquém das possibilidades

impossibility_400x600

É irrealmente sortudo quem diz que vive acima das suas possibilidades. Sobretudo porque consegue fazer algo que, por definição, é impossível. Se alguém vive no pleno das suas possibilidade também já não estará nada mal servido. Estará naquilo a que os economistas chamam de “steady-state”, ou seja, num estado a partir do qual nada mais pode progredir. É um estado perfeito num certo sentido, mas deprimente ainda assim. Quem gostaria de estar num estado do qual não pode sair a não ser para piorar? A dinâmica é que tem graça, o estado das coisas só serve de referencial, é uma fotografia, não existe. E ninguém gostaria de ser uma fotografia.

Então eu diria que é mais realista e, sobretudo, mais animador afirmar que vivemos, e assim continuaremos, aquém das nossas possibilidades. Porque a verdade é que podíamos viver bem melhor. Mesmo dentro do limitado horizonte do possível ainda me parece que há muita margem de progressão, até porque, como bem sabia um famoso modelo de t-shirts argentino, esta coisa do possível ainda tem que se lhe diga. Só se acharmos que não era possível termos feito melhor pela nossa vida, que fizemos sempre tudo bem, que nada podia ter sido feito de outra forma, é que podemos afirmar que não há mais possibilidades para explorar. A verdade é que se vivemos acima das nossas possibilidades, então as nossas possibilidades são bem diminutas. E se não é possível viver acima dessas possibilidades, então mais vale arrumar a viola no saco. Mas, ao que consta, até houve umas coisitas mal feitas aqui e ali, umas imperfeições, o que me deixa esperançoso. Talvez as possibilidades ainda estejam acima de nós, como deve ser.

pos·si·bi·li·da·de

(latim possibilitas, -atis)
substantivo feminino
1. Qualidade do que pode acontecer, do que é possível.