Mas quais gerações futuras?

helen-lovejoyÉ difícil ter paciência para acompanhar a política quando o debate é levado à mais extrema imbecilidade por um dos lados. Quando se tenta fazer crer que o que está em causa nesta história das dívidas é uma questão geracional, em que se opta entre onerar a geração presente e a geração futura, é isso que se está a fazer. Na prática o que se quer dizer é que, ou se cortam salários e pensões agora, ou vamos ter que pagar por isso no futuro. Não é por acaso que se dramatizam os problemas da juventude, sempre apresentada como muito criativa, empreendedora e, acima de tudo, bem comportada. Contrastando com a imagem do pensionista, instalado, com “direitos adquiridos” e sempre a refilar com o governo. Desse ou do funcionário público, sobretudo se tiver uma longa carreira e ganhe dinheiro suficiente para ir jantar fora de vez em quando. E depois, qual Helen Lovejoy nos Simpsons, sempre aparece alguém “won’t somebody please think of the children?”.

A questão é saber, mas de que gerações futuras é que se está a falar? Eu não tenho por hábito, muito menos por principio, cuspir no prato em que como. Sendo um representante das gerações futuras tão digno como outro qualquer gostava de esclarecer uma ou duas coisas. Tudo aquilo que eu tenho deve-se totalmente às gerações do passado. Se pude estudar, tive acesso a saúde, livros, filmes, noitadas, idas à praia com farnel, e mais um par de botas, isso deve-se às gerações que precederam a minha. Se tenho a liberdade de escolher fazer estas coisas todas, também. E agora, é suposto eu escolher entre sacrificar essa geração ou a minha? Bem, a minha, que eu saiba, não fez nada ainda que se veja para ter aquilo de que usufrui. Portanto, mesmo nesta dinâmica maquiavélica da idade contra a juventude, não vejo onde está a justiça de condenar a primeira em favor da segunda.

Mas mais uma vez, pergunto. De que gerações futuras é que estamos a falar? A dos que têm que sair da faculdade porque não têm dinheiro para se sustentar? Dos que ficam no desemprego sem direito a subsídio e cuja única forma de sobreviver é recorrer ao apoio familiar? Ou é a dos que vão apanhar o downsizing escolar e ser ensinados por professores mal pagos e à espera da primeira oportunidade de arranjar um emprego melhor? Que gerações futuras? Alguém pensa em criar gerações futuras neste clima de caos e incerteza?

É preciso perceber que esta discussão é completamente vazia de sentido. O esforço feito nos últimos três anos para não onerar as gerações futuras só levou a que todas fossem mais sacrificadas. Isto não é um jogo de soma nula, está a ser um jogo de soma negativa. E tem que se tornar num jogo de soma positiva se queremos que essas gerações futuras existam e estejam cá para pagar as dívidas. O trabalho da geração presente é criar a geração futura, e 0 corte permanente da sua capacidade de o fazer é que vai onerar, e muito, esses hipotéticos filhos e netos. É que o esforço de não lhes deixar dívida nem sequer tem sucesso. As gerações futuras, graças a alguns não representativos das gerações presentes, vão herdar mais dívida, pior Estado e pior economia, se as coisas continuarem assim.

E, numa nota final, que raio de geração é a minha se comprar esta história? Como é que se pode apelidar de tão qualificada se aderir a esta teoria, que já se mostrou falsa para além de qualquer dúvida razoável? Que raio de geração é esta, que raio de tempo é este, em que quem se insurge, quem reage, quem protesta são pessoas com idade para já não se precisarem de chatear com isso? Enquanto os netos andam mais preocupados com as suas vidinhas e, ocasionalmente, ainda desdenham daquilo que os avós lhes deixaram. Como se alguma vez tivessem ido a algum lado sem que outros antes deles tivessem lutado para mudar um país miserável que ameaça regressar.

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2 thoughts on “Mas quais gerações futuras?

  1. Tentei escrever vários comentários e apaguei-os todos… O que dizer? Que a maior parte de nós são broncos que se recusam a pensar? Que encaram a politica como a bola e o clube é o partido? Que prefere fingir que está tudo bem a ter de se mexer?

    Eu não sei, mas sei que conheço muita gente inteligente que prefere não pensar em nada e apenas ligar ao que ouve no café ou nos telejornais. E isso também explica muita coisa.

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    1. A crise põe-nos a todos muito focados nos nossos próprios problemas, isso é um facto. A instabilidade com que se vive impede as pessoas de terem fôlego para pensar sobre as coisas e para intervir. Não é só uma questão de vontade, penso eu. De qualquer forma, isto não é desculpa. Cada vez o cidadão está mais divorciado da Cidade, e isso é péssimo.

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