Salário Mínimo Nacional e o Dilema do Prisioneiro

Quando as comissões patronais, como a CIP, se declaram favoráveis a uma subida do salário mínimo, é comum ouvir o seguinte argumento por parte dos opositores: se os patrões querem pagar mais, porque é que não pagam? Têm a faca e o queijo na mão.

Este argumento faz algum sentido, à primeira vista, mas esquece alguns ensinamentos da economia que deviam estar sempre presentes.

É preciso não esquecer algo que é por demais evidente: a procura importa para o investimento das empresas. As empresas retiram rendimento da venda dos seus produtos ou da prestação dos seus serviços, e investem de acordo com o rendimento que esperam obter desse investimento. Essa procura, para a generalidade das empresas, é composta na sua esmagadora maioria pelo consumo realizado por trabalhadores assalariados. Ora, estes, por sua vez, retiram o seu rendimento do seu salário. Ou seja, maiores rendimentos salariais, maior procura, maior consumo, mais lucro e mais investimento.

Isto não é tão simples assim, claro. O salário também é um custo para as empresas, e também entra em linha de conta no cálculo do lucro, e, logicamente, do investimento. Então, só com um crescimento nos salários que seja geral, e que faça com que haja um crescimento na procura (vendas e receitas) que permita compensar esse custo adicional, é que interessa a um empresário que os salários subam.

É aqui útil recorrer ao famoso “Dilema do Prisioneiro”, um exemplo típico da teoria dos jogos. Imaginem que dois indivíduos são suspeitos de cometer um crime em conjunto e são detidos pela polícia. A polícia interroga cada um individualmente e propõe o seguinte: se o indivíduo confessar e o colega não, vai em liberdade; se não o fizer e o colega confessar, leva 10 anos. Se ambos confessarem, ambos levam 5 anos. Se nenhum confessar, ficam os dois um mês na prisão. O que acontece, previsivelmente, é que ambos confessem, já que para ambos é a melhor estratégia. Imaginem, se um não confessar sabe que o outro tem todos os incentivos para o fazer; se confessar, também. Como ambos sabem que o outro tem incentivos para confessar, ambos o fazem. No entanto, a melhor situação para ambos, seria que nenhum confessasse (iriam ambos apenas um mês ver o sol aos quadradinhos).

A ideia do Dilema do Prisioneiro é a de mostrar que é possível que os agentes, ao decidir individualmente, podem fazer opções que não são óptimas para o seu bem-estar. No caso dos empresários, eles podem considerar que seria bom que houvesse um aumento no nível dos rendimentos salariais para que isso provocasse um aumento na procura interna. No entanto, se um aumentar os salários na sua empresa e os restantes não, apenas verá os seus custos subir, uma vez que a quantidade de pessoas que emprega não chega para provocar esse efeito macroeconómico do crescimento da procura. Ainda, se todos aumentarem os salários e ele não, ele ganha com isso, uma vez que beneficia desse aumento da procura sem aumentar os seus custos. Então, a melhor estratégia para os empresários é a não-cooperativa, ou seja, manter os salários mais baixos, ainda que eles preferissem a outra situação. Os empresários encontram-se no Dilema do Prisioneiro, ou seja, no mau equilíbrio.

Para que saiam do Dilema do Prisioneiro, é necessário que encontrem uma forma de cooperação que seja vinculativa, que garanta a todos os agentes que ninguém vai fazer “free-riding”, isto é, beneficiar da estratégia sem pagar por isso. E como é se consegue isto de sair do Dilema do Prisioneiro e passar para o bom equilíbrio, que beneficia todos? Por exemplo, impondo a cooperação sob a forma de uma lei que estipule um Salário Mínimo Nacional. Desta forma todos sabem que todos vão cumprir, porque é a lei, e a lei cumpre-se.

 

P.S. Eu sei que é difícil provar que, de facto, um aumento do salário mínimo provoque um crescimento na procura que compense o crescimento dos custos de produção, e não o tentei fazer. Aquilo a que me propus neste exercício foi mostrar que o salário mínimo nacional pode fazer sentido macroeconómico, isto é, ter efeitos positivos no PIB de uma forma bastante directa. Mas mais que isso, tentei mostrar que faz sentido que os patrões peçam para que se produza este tipo de mudança de forma legislativa e centralizada, uma vez que se encontram no Dilema do Prisioneiro.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s