TelexFREE – Ponzi vive

charlesponziCarlo Ponzi chegou aos EUA com uma mão à frente e outra atrás, ali por volta da segunda década do século passado, tal como o batalhão de migrantes italianos que por aquela altura aportavam àquelas paragens em busca do sonho americano. Inteligente, rapidamente descobriu um negócio altamente lucrativo, que o iria tornar num homem rico. Em termos simples, ele compraria selos na Europa que revenderia nos EUA, aproveitando uma diferença nos preços que lhe renderia lucros formidáveis. Tão formidáveis que só um tolo não investiria nesta ideia, fazendo dinheiro rápido e fácil. Ponzi não era um daqueles tipos da alta finança que ficam sempre com a fatia de leão dos lucros, ele era um tipo do povo que queria partilhar a riqueza com o seu semelhante, e quem lhe confiasse os seus tostões iria conseguir finalmente fazer dinheiro a sério e subir na vida. Não é então surpreendente que, em pouco tempo, houvesse gente a fazer fila para lhe entregar dinheiro, que ele transformava em mais dinheiro a uma velocidade nunca antes presenciada. E a fama cresceu, e cada vez mais gente ansiava por conseguir dinheiro suficiente para participar neste festim; diz-se que chegaram a contar-se 40 000 investidores no negócio de Charles Ponzi.

Um pormenor: Ponzi nunca comprou um selo. Isto é, terá comprado, como qualquer pessoa, para enviar cartas. Mas nada mais. O que descobriu foi que, se conseguisse convencer sempre mais pessoas a investir, iria conseguir dinheiro para remunerar os investidores iniciais e ainda guardar algum para si. Do género: A entrega 100 a P. B e C entregam 100 cada um a P. P paga 150 a A e fica com 50 para ir às compras. Entretanto, D, E, F, G, e H. começam a ouvir sobre um Zé Ninguém que comprou uma mota nova com dinheiro que ganhou com um tal de P que descobriu uma forma genial de ganhar dinheiro sem fazer nada. Como estes não são menos do que os outros, e também lhes dava jeito um suplementozito para levar a esposa a jantar àqueles sítios que fazem inveja, também vão convencer P a deixá-los entrar na negociata. E P já consegue pagar a B e a C, e ficar com algum para si, claro. E assim sucessivamente, acho que já perceberam.

Perguntarão: então, mas se o I, o J, o K, o L…, não entrarem no negócio, como é que o P vai ter dinheiro para pagar a todos? Pois…não vai. Mas como é que eles não hão-de entrar? Vão ficar a olhar enquanto os outros vivem que nem imperadores romanos? E dir-me-ão: sim, mas eventualmente o P vai ter mais gente a quem pagar do que a pagar, não há um número infinito de pessoas. Pois é, e olhem para o P preocupado, ou para o A, para o B, e para o C.

Como devem perceber, na verdade o que se está a fazer é transferir dinheiro de umas pessoas para outras, sem que se crie nada no processo. Eventualmente os últimos a entrar no esquema vão ficar sem dinheiro. Mas, ao contrário do que assume a teoria económica mais ortodoxa, não é claro que exista o homo economicus, e que possamos esperar perfeita racionalidade do comportamento humano. Por isso, quase cem anos depois de Ponzi, novos esquemas de pirâmide ainda são bem sucedidos.

Esta semana deparei-me com a proposta de um negócio altamente aliciante. Chama-se Telex-Free. O Telex-Free  explora duas áreas distintas: as chamadas VoiP e a publicidade. E o aliciante está na segunda área. A proposta é que nos tornemos “divulgadores” da Telex-Free. Para isso, devemos comprar um “kit”, que custa entre 289 e 1375 dólares, para que possamos “trabalhar”, colocando anúncios na internet. Ao fazê-lo é possível conseguir um rendimento de cerca de 400 dólares por mês (com o “kit” mais caro). Mas há uma forma de ganhar ainda mais dinheiro: por cada amigo que convençam a entrar para o Telex-Free, ganham uns 100 dólares extra, mais 2% do dinheiro que eles gerarem.

Que grande negócio! 4800 dólares por ano com um investimento de 1375, ou seja, uma rentabilidade de cerca de 250% ao ano! Ah, mas calma, temos de copiar e colar 28 anúncios para receber os tais 400 dólares por mês. Estamos a trabalhar! E faz todo o sentido, é “marketing multi-nível”, a publicidade paga-se, e nós também podemos ganhar dinheiro com isso. Certo?

Caros amigos, já ouviram falar de um país chamado Índia? Sabem por quanto dinheiro é que a Telex-Free conseguia pôr um desgraçado qualquer a copiar e colar muito mais do que 28 anúncios por dia? Ou assumimos que os donos desta empresa são uns beneméritos, e estão dispostos a perder dinheiro, ou algo aqui cheira a esturro. Simplesmente, não existe explicação económica para este tipo de rentabilidade. Isto é, claramente, um esquema de pirâmide (Ponzi). Existe uma elaborada justificação para os ganhos mas ela não resiste a uma análise minimamente racional. A diferença entre isto e o jogo da bolha, ou o que fez Bernie Madoff, é nula. Vejam bem, por que razão ganhamos mais 100 dólares por cada amigo que se junte à festa? A mim parece-me demasiado óbvio. A base tem que crescer, ou se convence ou D, o E, o F…a entrar, ou está tudo tramado. E é também por isso que se publicita tanto os casos de sucesso deste “modelo de negócio”.

Parece que existe muita gente a ganhar dinheiro com isto em Portugal, tendo o fenómeno começado na Madeira (depois de ter sido ilegalizado no Brasil). É normal que haja gente a ganhar dinheiro enquanto a base cresce, faz parte do jogo. Quando pesquisei sobre isto descobri muitos posts em blogues (posts suspeitamente semelhantes entre si) em que os autores proclamavam a seriedade disto, argumentando que já tinham recebido o dinheiro e tudo. Ao que parece, até um padre incentivou os seus fiéis a abrir contas no Telex-Free, dando-lhes assistência técnica, o que permitiu que muitas pessoas conseguissem fazer face à crise e sobreviver honrando os seus compromissos financeiros. Lembrem-se, é normal que haja pessoas que ganhem dinheiro. Ponzi também pagava, Madoff também, faz parte do jogo. Mas esse dinheiro é sempre ganho à custa da pessoa que entrar a seguir, que pode não ter a mesma sorte. E pode até, por desígnio divino ou mera fortuna do destino, isto traduzir-se numa redistribuição favorável a algumas pessoas que necessitem mais. Mas quem entra corre o risco de o sistema colapsar antes de recuperar o dinheiro! Porque é uma questão de tempo até isso acontecer. É altamente arriscado, e é preciso ter muita fé para entrar nisto (peço desculpa, mas não me sai da cabeça a imagem de um pároco a pregar as virtudes dos esquemas de Ponzi).

E porque é que os esquemas de pirâmide sobrevivem? Porque as pessoas sobrevalorizam a probabilidade do ganho. Além de formarem as suas expectativas com base no passado, e assim, se nada ainda correu mal, é difícil imaginar que vá correr. Existe um vídeo no Youtube em que o astrofísico Neil DeGrasse Tyson explica a Conan O’Brien que as probabilidades de um asteróide embater na Terra são de cerca de 1/45000 (não estou certo, mas julgo que era este o número). O entrevistador ri-se perante uma probabilidade tão diminuta, mas o entrevistado responde: todos os dias milhões de pessoas apostam na lotaria, com piores probabilidades do que essa. Dizia David Hume que a mente é escrava das paixões, e a verdade é que, por querermos acreditar que é possível enriquecer tão facilmente, abandonamos a avaliação racional das decisões e arranjamos mil e uma justificações para que seja possível. Mas a realidade e a matemática não estão aí para os nossos delírios, por isso, tenham cuidado com o que fazem aos vossos euros. Quando a esmola é muita…


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