Her – I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter

A canção “I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter” (letra: Joe Young; música: Fred E. Ahlert), que ouvi pela primeira vez na voz de Nat King Cole (e que foi interpretada mais recentemente por Paul McCartney) sempre me entreteve bastante. É uma ideia tão infantil e tão deprimente a de um homem que se senta a escrever uma carta a si próprio fingindo ser da sua amada, tão ridiculamente desesperada, que tem graça. Este imaginário loser é explorado em bastantes obras da música e do cinema, mas esta canção é uma das que melhor o expressam. É a auto-ilusão como forma de controlar uma situação incontrolável. O nível de detalhe a que a carta chega para satisfazer o desejo de atenção do remetente, “I’m gonna smile and say I hope you’re felling better”, é essa tentativa de contornar a realidade da sua triste existência de não-correspondido. Uma tentativa desesperada de conseguir auto-satisfação.

her-joaquin-phoeni_2765299bEm Her, o loser de serviço chama-se Theodore Twombly e é interpretado por Joaquin Phoenix. E qual é a sua profissão? Exactamente: escritor de cartas. Twombly trabalha numa empresa que escreve cartas pessoais numa espécie de outsourcing emocional. Isto é, as pessoas pagam-lhe para que escreva e envie cartas para os seus entes queridos, a seu nome. Nos termos da canção, os seus clientes pedem-lhe: you’re gonna sit right down and write himself a letter, and make believe it came from me. Tudo isto se passa num ambiente futurista, em que a tecnologia ganhou formas muito mais sofisticadas de nos iludir para nos satisfazer os caprichos mais extravagantes. Twombly é profissional dessa ilusão, escreve cartas absolutamente sentimentais de e para pessoas que não conhece. Na sua vida pessoal, o personagem principal é uma versão 2030 de um nerd de 2013, jogar video-jogos e ter relações virtuais é a sua rotina. Quando adquire o novo sistema OS One, um super-computador com inteligência artificial que evolui de acordo com a nova informação que vai adquirindo, Twombly ganha mais do que um gadget. É aqui que aparece Samantha (a voz de Scarlett Johanson), o computador com quem o nosso protagonista irá manter uma intensa relação amorosa.

É interessante como o filme consegue ter uma forma tão bela de ser distópico. As imagens do futuro são extremamente apelativas, quase idílicas por vezes. O mundo não está coberto de poluição, crime e pobreza, pelo menos em Los Angeles. Pelo contrário, a apresentação que nos fazem do futuro é, por vezes, quase bucólica. A distopia é mais íntima e tem a ver a forma como os humanos interagem nas suas relações pessoais num mundo cada vez mais tecnológico. A interpretação de Scarlett Johanson é brilhante, sobretudo na forma como, sendo só voz, nos faz crer, tal como a Theodore, que é de facto uma existência real. A banda sonora, criada pelos Arcade Fire, é soberba e torna a experiência de ver o filme em algo absolutamente envolvente. O papel de Joaquin Phoenix é, por sua vez, aquilo que proporciona a nossa imersão total na história e no personagem que interpreta.

Her não é tanto sobre os perigos da tecnologia como sobre o egocentrismo. Theodore vive totalmente absorto em si próprio, nas expectativas que tem do que as pessoas deviam ser para si. O seu divórcio deveu-se, sabemos com o decorrer do filme, à incapacidade de a sua ex-mulher cumprir as suas expectativas. Por isso, quando conhece Samantha – “alguém” que evolui e se adapta à sua personalidade, que tem recursos informáticos para ser aquilo que ele imagina que merece, e que não o contraria – ele fica totalmente rendido. A relação que cria com Samantha é uma relação que cria consigo próprio, com o seu ego, já que ela apenas vive através dele e das experiências que ele lhe proporciona. Não tenhamos dúvidas, tudo no filme é sobre Theodore Twombly. Samantha é um computador, um mero aparelho que o ilude, que lhe permite acreditar que a “carta” que está a escrever para si próprio foi escrita por outra pessoa. O problema é quando se depara com o facto de tantas outras pessoas utilizarem o mesmo expediente, o facto de Samantha servir o mesmo propósito para tanta gente, que provoca um enorme choque. É o desvendar da patranha do computador pessoal, que de pessoal tem tão pouco. O interessante é que Samantha, o OS One, tem que ganhar uma dimensão, uma consciência própria, para poder desvendar esta verdade a Theodore.

É também sobre como pessoas com uma sensibilidade e criatividade acima da média tendem a viver frustradas no mundo das pessoas normais. É isso que acontece com a sua única amiga real, Amy (Amy Adams), cujo marido não consegue compreender as suas concepções artísticas, não acompanha a sua sensibilidade e o seu intelecto, e por isso se divorcia dele. Neste aspecto, o filme partilha do espírito de The Secret Life of Walter Mitty, do homem que não se enquadra na sociedade porque não aceita a mediania que esta lhe propõe. Twombly é um escritor bastante talentoso e alguém que vê o mundo de uma forma bastante particular, o que torna difícil a sua relação com os outros. É isto, por um lado, que cria um infeliz desfecho para si próprio. Samantha, que recebeu todos estes inputs, e que dispõe de uma capacidade “intelectual” quase infinita, rapidamente o ultrapassa neste sentimento, e rapidamente passa a ser ela que não se consegue relacionar apenas com ele e com a sua mediania.

De certo modo, Her partilha algumas semelhanças com a clássica série Twilight Zone. Usa a mesma fórmula, ou seja, introduzir elementos de ficção cientifica para abordar temas filosóficos e para analisar características da natureza humana. Esta semelhança estende-se até ao facto de se concluir num desfecho mais ou menos trágico para o protagonista, que é vítima da circunstância em que foi colocado e de si próprio, algo típico na série. Podemos olhar para esta obra como um comentário aos perigos da tecnologia, mas devemos também ver para além disso. A tecnologia é um perigo na medida em que nos permite, com demasiada facilidade, evitar lidar com certas coisas. Como enviar cartas para os nossos entes queridos ou interagir com outros seres humanos. No caso desta história, permite a Twombly viver apenas consigo próprio, sem ter que lidar com os aspectos mais difíceis da vida real. Ao fazê-lo, nós conseguimos observar o que acontece a um homem que é uma ilha. Que não vive fora de si e para quem a sua pessoa é a única questão importante da vida.

Tentar fazer futurologia com Her é um logro. Her é a história mais actual que existe. Caminham pelo mundo milhões de Theodore Twomblys, aliás, todos nós temos algo de Tombly, em maior ou menor porção. Assim como todos nós nos sentamos a escrever cartas a nós próprios, ocasionalmente. O segredo é ter noção disso, e não nos convencermos que as cartas, ou as Samanthas, são reais. Mas não vem mal ao mundo se o fizermos com ponderação, como em tudo. A realidade é, muitas vezes, demasiado desinteressante e dura, e algum make believe é necessário. É para isso, também, que existe o cinema, uma carta de nós para nós próprios que fingimos ser escrita por outra pessoa, with kisses on the bottom.

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