O Lobo de Wall Street

wolf_wall_street3The Wolf of Wall Street é o Apocalypse Now dos filmes sobre a alta finança. Sim, eu tenho noção da comparação que acabo de fazer e, não, não tem a ver com a duração relativamente longa de ambos (cerca de três horas, mas tamanho não é documento). E, tudo bem, não há um Full Metal Jacket nesta analogia. Existem bons filmes, como Margin Call ou Wall Street (Cosmopolis é uma lacuna que ainda tenho que colmatar), mas são filmes absolutamente banais, com um enorme esforço em parecer tecnicamente rigorosos e com muito pouca capacidade de captar o espírito da realidade que abordam. O Lobo de Wall Street não, é o contrário disso.

É impressionante como é Scorsese, e não um rookie com provas a dar, a fazer este filme. Como, depois de Raging Bull ou Taxi Driver, arrisca tanto é admirável. O filme tem muito por onde dar mau resultado, as cenas com drogas e prostitutas parecem excessivas e, para quem espera que os filmes sejam uma representação rigorosa da vida real, pouco credíveis. Mas desengane-se quem julgue que são gratuitas. Tudo é absolutamente fundamental para a integridade da obra. Porque tudo contribui para que entremos naquele ritmo frenético do capitalismo financeiro em tempos de euforia. As drogas e as prostitutas são consumo que se esgota tão rapidamente como se realizam transacções de penny-stocks em bolsa. O dinheiro gasta-se de forma tão absurda e moral como se ganha.  Não se pensa, faz-se. A seguir a uma golpada vem outra. Querer sempre mais, não interessa do quê. E tudo, da câmara às interpretações dos actores, nos envolve nisto. Neste êxtase e nesta loucura de nem sequer ter tempo suficiente para se gastar o que se tem, mas querer sempre ter mais. O reino do já, do imediato.

Scorsese consegue apresentar-nos a mestria que só alguém com muitos anos a fazer filmes consegue, combinada com a frescura que, à partida, só um novato a dar os primeiros passos conseguiria ter. Os jogos que faz, colocando o personagem principal a dirigir-se directamente à audiência, a apresentação do factual e do contra factual ou colocando-nos a ouvir os pensamentos dos personagens, contribuem para que estejamos perante um belo trabalho. O elenco é tão bom que parece mentira, com interpretações impagáveis de Jonah Hill e Matthew McConaughey. DiCaprio aparece como nunca, com uma entrega total ao papel de milionário degenerado, dando o ritmo ao filme. A cena em que se arrasta para o carro depois de ficar paralisado por um Quaalude é absolutamente brilhante e é daquilo que grandes actores são feitos.

Inteligentemente, a narrativa é apresentada de uma forma que, não sendo amoral, escapa ao moralismo. Não se glorifica o estilo de vida do personagem interpretado por Di Caprio, mas também não se faz dele uma vítima, nem sequer se tentam arranjar desculpas de forma alguma ou interpretar o seu comportamento. De resto, como diria Susan Sontag, a arte não trata da análise, é uma prova, completa e formal, de que algo é o que é.  E o filme cumpre magistralmente este papel. Seria muito fácil fazer do protagonista uma espécie de Gordon Gekko, uma pinhata em que bater para expurgar os males que vêm ao mundo sempre que Wall Street se excede em ganância. Só que não se trata de moralizar, mas de mostrar a história de um homem que vive de acordo com uma ideia, de forma coerente, até ao fim. Neste aspecto, não deixo de fazer um paralelo com a forma como Fellini conta a história de Giacomo Casanova, recorrendo ao mesmo exagero gradualmente crescente, de forma a fazer-nos experimentar a evolução do personagem  enquanto vive de acordo com uma concepção bastante particular do seu propósito. Não tenho dúvidas de que, algures no consciente ou no sub-consciente de Martin Scorsese, há uma inspiração no Casanova de Fellini.

E esse propósito, para Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), é ser um milionário. O dinheiro é um fim, e não um meio. As drogas são uma forma de lidar com o ritmo avassalador da actividade, e uma forma de justificá-la. Porque o dinheiro resolve tudo, tudo se compra. Cocaína para acordar, comprimidos para as dores de costas e, claro, tudo o resto para não se confrontar com o facto de qualquer passo em falso nos poder enviar para a prisão e para a ruína. Quando confrontado com agentes do FBI que recusam um suborno, Belfort (DiCaprio) fica atónito e furioso, porque isso choca com tudo o que sabe sobre as pessoas: que toda a gente quer dinheiro. Aliás, existe uma cena particularmente engraçada no filme, quando o personagem diz aos seus sócios que toda a gente quer ficar rica – e depressa – e um dos seus interlocutores contesta com o exemplo dos Amish e dos “budas” (expressão do personagem, não minha), o que o leva a ficar perplexo, é algo que não cabe na concepção de “pessoa normal” – sua e, secretamente, do espírito dos tempos. Toda a gente quer ficar rica e, explorando isso, Jordan Belfort torna-se um milionário, casa com uma modelo e glorifica um estilo de vida opulento e hedónico. Porque quanto mais a sua riqueza for cobiçada, mais ambição existe para rentabilizar.

Desde Melies que o cinema é uma arte do engano, da ilusão. O Lobo de Wall Street encaixa nessa concepção, o espectador é iludido, enganado e desenganado várias vezes durante o filme. Outra coisa não poderia acontecer. A ilusão é o tema central desta obra. É a forma como a ilusão tem um papel tão importante nas nossas vidas. É a ilusão de que é possível ficar muito rico com pouco esforço que permite a Belfort seduzir os seus clientes. É a ilusão de que chegar ao topo está ao alcance de qualquer um que seduz o batalhão de funcionários que trabalham para si. E, acima de tudo, é a ilusão de que ter dinheiro e gastá-lo é a máxima satisfação. Belfort é vítima e autor dessa ilusão que cultiva nos outros e que o faz continuar e querer sempre mais. No fim, tudo remonta à venda da caneta, a criar a necessidade. Mas o engano é pensar que podemos sempre enganar outro, e que a voracidade dos nossos desejos e ilusões não irá um dia prestar contas connosco.

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