Mas quais gerações futuras?

helen-lovejoyÉ difícil ter paciência para acompanhar a política quando o debate é levado à mais extrema imbecilidade por um dos lados. Quando se tenta fazer crer que o que está em causa nesta história das dívidas é uma questão geracional, em que se opta entre onerar a geração presente e a geração futura, é isso que se está a fazer. Na prática o que se quer dizer é que, ou se cortam salários e pensões agora, ou vamos ter que pagar por isso no futuro. Não é por acaso que se dramatizam os problemas da juventude, sempre apresentada como muito criativa, empreendedora e, acima de tudo, bem comportada. Contrastando com a imagem do pensionista, instalado, com “direitos adquiridos” e sempre a refilar com o governo. Desse ou do funcionário público, sobretudo se tiver uma longa carreira e ganhe dinheiro suficiente para ir jantar fora de vez em quando. E depois, qual Helen Lovejoy nos Simpsons, sempre aparece alguém “won’t somebody please think of the children?”.

A questão é saber, mas de que gerações futuras é que se está a falar? Eu não tenho por hábito, muito menos por principio, cuspir no prato em que como. Sendo um representante das gerações futuras tão digno como outro qualquer gostava de esclarecer uma ou duas coisas. Tudo aquilo que eu tenho deve-se totalmente às gerações do passado. Se pude estudar, tive acesso a saúde, livros, filmes, noitadas, idas à praia com farnel, e mais um par de botas, isso deve-se às gerações que precederam a minha. Se tenho a liberdade de escolher fazer estas coisas todas, também. E agora, é suposto eu escolher entre sacrificar essa geração ou a minha? Bem, a minha, que eu saiba, não fez nada ainda que se veja para ter aquilo de que usufrui. Portanto, mesmo nesta dinâmica maquiavélica da idade contra a juventude, não vejo onde está a justiça de condenar a primeira em favor da segunda.

Mas mais uma vez, pergunto. De que gerações futuras é que estamos a falar? A dos que têm que sair da faculdade porque não têm dinheiro para se sustentar? Dos que ficam no desemprego sem direito a subsídio e cuja única forma de sobreviver é recorrer ao apoio familiar? Ou é a dos que vão apanhar o downsizing escolar e ser ensinados por professores mal pagos e à espera da primeira oportunidade de arranjar um emprego melhor? Que gerações futuras? Alguém pensa em criar gerações futuras neste clima de caos e incerteza?

É preciso perceber que esta discussão é completamente vazia de sentido. O esforço feito nos últimos três anos para não onerar as gerações futuras só levou a que todas fossem mais sacrificadas. Isto não é um jogo de soma nula, está a ser um jogo de soma negativa. E tem que se tornar num jogo de soma positiva se queremos que essas gerações futuras existam e estejam cá para pagar as dívidas. O trabalho da geração presente é criar a geração futura, e 0 corte permanente da sua capacidade de o fazer é que vai onerar, e muito, esses hipotéticos filhos e netos. É que o esforço de não lhes deixar dívida nem sequer tem sucesso. As gerações futuras, graças a alguns não representativos das gerações presentes, vão herdar mais dívida, pior Estado e pior economia, se as coisas continuarem assim.

E, numa nota final, que raio de geração é a minha se comprar esta história? Como é que se pode apelidar de tão qualificada se aderir a esta teoria, que já se mostrou falsa para além de qualquer dúvida razoável? Que raio de geração é esta, que raio de tempo é este, em que quem se insurge, quem reage, quem protesta são pessoas com idade para já não se precisarem de chatear com isso? Enquanto os netos andam mais preocupados com as suas vidinhas e, ocasionalmente, ainda desdenham daquilo que os avós lhes deixaram. Como se alguma vez tivessem ido a algum lado sem que outros antes deles tivessem lutado para mudar um país miserável que ameaça regressar.

Salário Mínimo Nacional e o Dilema do Prisioneiro

Quando as comissões patronais, como a CIP, se declaram favoráveis a uma subida do salário mínimo, é comum ouvir o seguinte argumento por parte dos opositores: se os patrões querem pagar mais, porque é que não pagam? Têm a faca e o queijo na mão.

Este argumento faz algum sentido, à primeira vista, mas esquece alguns ensinamentos da economia que deviam estar sempre presentes.

É preciso não esquecer algo que é por demais evidente: a procura importa para o investimento das empresas. As empresas retiram rendimento da venda dos seus produtos ou da prestação dos seus serviços, e investem de acordo com o rendimento que esperam obter desse investimento. Essa procura, para a generalidade das empresas, é composta na sua esmagadora maioria pelo consumo realizado por trabalhadores assalariados. Ora, estes, por sua vez, retiram o seu rendimento do seu salário. Ou seja, maiores rendimentos salariais, maior procura, maior consumo, mais lucro e mais investimento.

Isto não é tão simples assim, claro. O salário também é um custo para as empresas, e também entra em linha de conta no cálculo do lucro, e, logicamente, do investimento. Então, só com um crescimento nos salários que seja geral, e que faça com que haja um crescimento na procura (vendas e receitas) que permita compensar esse custo adicional, é que interessa a um empresário que os salários subam.

É aqui útil recorrer ao famoso “Dilema do Prisioneiro”, um exemplo típico da teoria dos jogos. Imaginem que dois indivíduos são suspeitos de cometer um crime em conjunto e são detidos pela polícia. A polícia interroga cada um individualmente e propõe o seguinte: se o indivíduo confessar e o colega não, vai em liberdade; se não o fizer e o colega confessar, leva 10 anos. Se ambos confessarem, ambos levam 5 anos. Se nenhum confessar, ficam os dois um mês na prisão. O que acontece, previsivelmente, é que ambos confessem, já que para ambos é a melhor estratégia. Imaginem, se um não confessar sabe que o outro tem todos os incentivos para o fazer; se confessar, também. Como ambos sabem que o outro tem incentivos para confessar, ambos o fazem. No entanto, a melhor situação para ambos, seria que nenhum confessasse (iriam ambos apenas um mês ver o sol aos quadradinhos).

A ideia do Dilema do Prisioneiro é a de mostrar que é possível que os agentes, ao decidir individualmente, podem fazer opções que não são óptimas para o seu bem-estar. No caso dos empresários, eles podem considerar que seria bom que houvesse um aumento no nível dos rendimentos salariais para que isso provocasse um aumento na procura interna. No entanto, se um aumentar os salários na sua empresa e os restantes não, apenas verá os seus custos subir, uma vez que a quantidade de pessoas que emprega não chega para provocar esse efeito macroeconómico do crescimento da procura. Ainda, se todos aumentarem os salários e ele não, ele ganha com isso, uma vez que beneficia desse aumento da procura sem aumentar os seus custos. Então, a melhor estratégia para os empresários é a não-cooperativa, ou seja, manter os salários mais baixos, ainda que eles preferissem a outra situação. Os empresários encontram-se no Dilema do Prisioneiro, ou seja, no mau equilíbrio.

Para que saiam do Dilema do Prisioneiro, é necessário que encontrem uma forma de cooperação que seja vinculativa, que garanta a todos os agentes que ninguém vai fazer “free-riding”, isto é, beneficiar da estratégia sem pagar por isso. E como é se consegue isto de sair do Dilema do Prisioneiro e passar para o bom equilíbrio, que beneficia todos? Por exemplo, impondo a cooperação sob a forma de uma lei que estipule um Salário Mínimo Nacional. Desta forma todos sabem que todos vão cumprir, porque é a lei, e a lei cumpre-se.

 

P.S. Eu sei que é difícil provar que, de facto, um aumento do salário mínimo provoque um crescimento na procura que compense o crescimento dos custos de produção, e não o tentei fazer. Aquilo a que me propus neste exercício foi mostrar que o salário mínimo nacional pode fazer sentido macroeconómico, isto é, ter efeitos positivos no PIB de uma forma bastante directa. Mas mais que isso, tentei mostrar que faz sentido que os patrões peçam para que se produza este tipo de mudança de forma legislativa e centralizada, uma vez que se encontram no Dilema do Prisioneiro.

Um português que eu odeio

Esta mini-polémica acerca do Fernando Tordo e da sua ida para o Brasil vem mostrar aquilo que de pior existe no ser português. Esse ser que não vê um bovino à frente quando se trata de fiscalizar a conduta de quem o governa, mas que é o primeiro a gritar “penalti” ou a acusar alguém de não contribuir para a segurança social (no facebook, nunca onde devia, claro). Que não admite que alguém viva em liberdade sem pedir desculpa pelo que é, e sem fingir ser “humildezinho”. Que acha que a ambição é o pior defeito, e que quem não é absolutamente miserável só tem é que viver feliz e contente no seu portugalzinho. Que vê em qualquer indivíduo que tenha algum vínculo com o Estado um favorecido, que devia era estar agradecido por essa esmola que o erário público lhe concede, como se não fosse trabalho que tem que ser pago por um serviço que se presta. Esse português é, aliás, o balão de oxigénio que sustenta todos os governos desde há muitos anos. O português que acha sempre que o trabalho dos outros não é trabalho. Que considera que qualquer vencimento acima dos três dígitos é escandaloso, ou que é, no mínimo, para comer e calar. Que vê com uma obsessiva desconfiança alguém que diga o que pensa, que faça o que lhe apetece, que goste daquilo que faz, sem interesses ocultos ou jogadas de bastidores. Esse português que odeia que um tipo não lhe peça autorização para ser bom e viver satisfeito. Que não lhe agradeça. Esse português, da direita à esquerda, odeia profundamente. Odeia o mérito, a grandeza, a coragem, a ambição, a vontade e o rasgo. Odeia que lhe mostrem que é possível viver com as costas direitas. Esse português odeia profundamente a liberdade. E eu odeio profundamente esse português.

TelexFREE – Ponzi vive

charlesponziCarlo Ponzi chegou aos EUA com uma mão à frente e outra atrás, ali por volta da segunda década do século passado, tal como o batalhão de migrantes italianos que por aquela altura aportavam àquelas paragens em busca do sonho americano. Inteligente, rapidamente descobriu um negócio altamente lucrativo, que o iria tornar num homem rico. Em termos simples, ele compraria selos na Europa que revenderia nos EUA, aproveitando uma diferença nos preços que lhe renderia lucros formidáveis. Tão formidáveis que só um tolo não investiria nesta ideia, fazendo dinheiro rápido e fácil. Ponzi não era um daqueles tipos da alta finança que ficam sempre com a fatia de leão dos lucros, ele era um tipo do povo que queria partilhar a riqueza com o seu semelhante, e quem lhe confiasse os seus tostões iria conseguir finalmente fazer dinheiro a sério e subir na vida. Não é então surpreendente que, em pouco tempo, houvesse gente a fazer fila para lhe entregar dinheiro, que ele transformava em mais dinheiro a uma velocidade nunca antes presenciada. E a fama cresceu, e cada vez mais gente ansiava por conseguir dinheiro suficiente para participar neste festim; diz-se que chegaram a contar-se 40 000 investidores no negócio de Charles Ponzi.

Um pormenor: Ponzi nunca comprou um selo. Isto é, terá comprado, como qualquer pessoa, para enviar cartas. Mas nada mais. O que descobriu foi que, se conseguisse convencer sempre mais pessoas a investir, iria conseguir dinheiro para remunerar os investidores iniciais e ainda guardar algum para si. Do género: A entrega 100 a P. B e C entregam 100 cada um a P. P paga 150 a A e fica com 50 para ir às compras. Entretanto, D, E, F, G, e H. começam a ouvir sobre um Zé Ninguém que comprou uma mota nova com dinheiro que ganhou com um tal de P que descobriu uma forma genial de ganhar dinheiro sem fazer nada. Como estes não são menos do que os outros, e também lhes dava jeito um suplementozito para levar a esposa a jantar àqueles sítios que fazem inveja, também vão convencer P a deixá-los entrar na negociata. E P já consegue pagar a B e a C, e ficar com algum para si, claro. E assim sucessivamente, acho que já perceberam.

Perguntarão: então, mas se o I, o J, o K, o L…, não entrarem no negócio, como é que o P vai ter dinheiro para pagar a todos? Pois…não vai. Mas como é que eles não hão-de entrar? Vão ficar a olhar enquanto os outros vivem que nem imperadores romanos? E dir-me-ão: sim, mas eventualmente o P vai ter mais gente a quem pagar do que a pagar, não há um número infinito de pessoas. Pois é, e olhem para o P preocupado, ou para o A, para o B, e para o C.

Como devem perceber, na verdade o que se está a fazer é transferir dinheiro de umas pessoas para outras, sem que se crie nada no processo. Eventualmente os últimos a entrar no esquema vão ficar sem dinheiro. Mas, ao contrário do que assume a teoria económica mais ortodoxa, não é claro que exista o homo economicus, e que possamos esperar perfeita racionalidade do comportamento humano. Por isso, quase cem anos depois de Ponzi, novos esquemas de pirâmide ainda são bem sucedidos.

Esta semana deparei-me com a proposta de um negócio altamente aliciante. Chama-se Telex-Free. O Telex-Free  explora duas áreas distintas: as chamadas VoiP e a publicidade. E o aliciante está na segunda área. A proposta é que nos tornemos “divulgadores” da Telex-Free. Para isso, devemos comprar um “kit”, que custa entre 289 e 1375 dólares, para que possamos “trabalhar”, colocando anúncios na internet. Ao fazê-lo é possível conseguir um rendimento de cerca de 400 dólares por mês (com o “kit” mais caro). Mas há uma forma de ganhar ainda mais dinheiro: por cada amigo que convençam a entrar para o Telex-Free, ganham uns 100 dólares extra, mais 2% do dinheiro que eles gerarem.

Que grande negócio! 4800 dólares por ano com um investimento de 1375, ou seja, uma rentabilidade de cerca de 250% ao ano! Ah, mas calma, temos de copiar e colar 28 anúncios para receber os tais 400 dólares por mês. Estamos a trabalhar! E faz todo o sentido, é “marketing multi-nível”, a publicidade paga-se, e nós também podemos ganhar dinheiro com isso. Certo?

Caros amigos, já ouviram falar de um país chamado Índia? Sabem por quanto dinheiro é que a Telex-Free conseguia pôr um desgraçado qualquer a copiar e colar muito mais do que 28 anúncios por dia? Ou assumimos que os donos desta empresa são uns beneméritos, e estão dispostos a perder dinheiro, ou algo aqui cheira a esturro. Simplesmente, não existe explicação económica para este tipo de rentabilidade. Isto é, claramente, um esquema de pirâmide (Ponzi). Existe uma elaborada justificação para os ganhos mas ela não resiste a uma análise minimamente racional. A diferença entre isto e o jogo da bolha, ou o que fez Bernie Madoff, é nula. Vejam bem, por que razão ganhamos mais 100 dólares por cada amigo que se junte à festa? A mim parece-me demasiado óbvio. A base tem que crescer, ou se convence ou D, o E, o F…a entrar, ou está tudo tramado. E é também por isso que se publicita tanto os casos de sucesso deste “modelo de negócio”.

Parece que existe muita gente a ganhar dinheiro com isto em Portugal, tendo o fenómeno começado na Madeira (depois de ter sido ilegalizado no Brasil). É normal que haja gente a ganhar dinheiro enquanto a base cresce, faz parte do jogo. Quando pesquisei sobre isto descobri muitos posts em blogues (posts suspeitamente semelhantes entre si) em que os autores proclamavam a seriedade disto, argumentando que já tinham recebido o dinheiro e tudo. Ao que parece, até um padre incentivou os seus fiéis a abrir contas no Telex-Free, dando-lhes assistência técnica, o que permitiu que muitas pessoas conseguissem fazer face à crise e sobreviver honrando os seus compromissos financeiros. Lembrem-se, é normal que haja pessoas que ganhem dinheiro. Ponzi também pagava, Madoff também, faz parte do jogo. Mas esse dinheiro é sempre ganho à custa da pessoa que entrar a seguir, que pode não ter a mesma sorte. E pode até, por desígnio divino ou mera fortuna do destino, isto traduzir-se numa redistribuição favorável a algumas pessoas que necessitem mais. Mas quem entra corre o risco de o sistema colapsar antes de recuperar o dinheiro! Porque é uma questão de tempo até isso acontecer. É altamente arriscado, e é preciso ter muita fé para entrar nisto (peço desculpa, mas não me sai da cabeça a imagem de um pároco a pregar as virtudes dos esquemas de Ponzi).

E porque é que os esquemas de pirâmide sobrevivem? Porque as pessoas sobrevalorizam a probabilidade do ganho. Além de formarem as suas expectativas com base no passado, e assim, se nada ainda correu mal, é difícil imaginar que vá correr. Existe um vídeo no Youtube em que o astrofísico Neil DeGrasse Tyson explica a Conan O’Brien que as probabilidades de um asteróide embater na Terra são de cerca de 1/45000 (não estou certo, mas julgo que era este o número). O entrevistador ri-se perante uma probabilidade tão diminuta, mas o entrevistado responde: todos os dias milhões de pessoas apostam na lotaria, com piores probabilidades do que essa. Dizia David Hume que a mente é escrava das paixões, e a verdade é que, por querermos acreditar que é possível enriquecer tão facilmente, abandonamos a avaliação racional das decisões e arranjamos mil e uma justificações para que seja possível. Mas a realidade e a matemática não estão aí para os nossos delírios, por isso, tenham cuidado com o que fazem aos vossos euros. Quando a esmola é muita…


Her – I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter

A canção “I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter” (letra: Joe Young; música: Fred E. Ahlert), que ouvi pela primeira vez na voz de Nat King Cole (e que foi interpretada mais recentemente por Paul McCartney) sempre me entreteve bastante. É uma ideia tão infantil e tão deprimente a de um homem que se senta a escrever uma carta a si próprio fingindo ser da sua amada, tão ridiculamente desesperada, que tem graça. Este imaginário loser é explorado em bastantes obras da música e do cinema, mas esta canção é uma das que melhor o expressam. É a auto-ilusão como forma de controlar uma situação incontrolável. O nível de detalhe a que a carta chega para satisfazer o desejo de atenção do remetente, “I’m gonna smile and say I hope you’re felling better”, é essa tentativa de contornar a realidade da sua triste existência de não-correspondido. Uma tentativa desesperada de conseguir auto-satisfação.

her-joaquin-phoeni_2765299bEm Her, o loser de serviço chama-se Theodore Twombly e é interpretado por Joaquin Phoenix. E qual é a sua profissão? Exactamente: escritor de cartas. Twombly trabalha numa empresa que escreve cartas pessoais numa espécie de outsourcing emocional. Isto é, as pessoas pagam-lhe para que escreva e envie cartas para os seus entes queridos, a seu nome. Nos termos da canção, os seus clientes pedem-lhe: you’re gonna sit right down and write himself a letter, and make believe it came from me. Tudo isto se passa num ambiente futurista, em que a tecnologia ganhou formas muito mais sofisticadas de nos iludir para nos satisfazer os caprichos mais extravagantes. Twombly é profissional dessa ilusão, escreve cartas absolutamente sentimentais de e para pessoas que não conhece. Na sua vida pessoal, o personagem principal é uma versão 2030 de um nerd de 2013, jogar video-jogos e ter relações virtuais é a sua rotina. Quando adquire o novo sistema OS One, um super-computador com inteligência artificial que evolui de acordo com a nova informação que vai adquirindo, Twombly ganha mais do que um gadget. É aqui que aparece Samantha (a voz de Scarlett Johanson), o computador com quem o nosso protagonista irá manter uma intensa relação amorosa.

É interessante como o filme consegue ter uma forma tão bela de ser distópico. As imagens do futuro são extremamente apelativas, quase idílicas por vezes. O mundo não está coberto de poluição, crime e pobreza, pelo menos em Los Angeles. Pelo contrário, a apresentação que nos fazem do futuro é, por vezes, quase bucólica. A distopia é mais íntima e tem a ver a forma como os humanos interagem nas suas relações pessoais num mundo cada vez mais tecnológico. A interpretação de Scarlett Johanson é brilhante, sobretudo na forma como, sendo só voz, nos faz crer, tal como a Theodore, que é de facto uma existência real. A banda sonora, criada pelos Arcade Fire, é soberba e torna a experiência de ver o filme em algo absolutamente envolvente. O papel de Joaquin Phoenix é, por sua vez, aquilo que proporciona a nossa imersão total na história e no personagem que interpreta.

Her não é tanto sobre os perigos da tecnologia como sobre o egocentrismo. Theodore vive totalmente absorto em si próprio, nas expectativas que tem do que as pessoas deviam ser para si. O seu divórcio deveu-se, sabemos com o decorrer do filme, à incapacidade de a sua ex-mulher cumprir as suas expectativas. Por isso, quando conhece Samantha – “alguém” que evolui e se adapta à sua personalidade, que tem recursos informáticos para ser aquilo que ele imagina que merece, e que não o contraria – ele fica totalmente rendido. A relação que cria com Samantha é uma relação que cria consigo próprio, com o seu ego, já que ela apenas vive através dele e das experiências que ele lhe proporciona. Não tenhamos dúvidas, tudo no filme é sobre Theodore Twombly. Samantha é um computador, um mero aparelho que o ilude, que lhe permite acreditar que a “carta” que está a escrever para si próprio foi escrita por outra pessoa. O problema é quando se depara com o facto de tantas outras pessoas utilizarem o mesmo expediente, o facto de Samantha servir o mesmo propósito para tanta gente, que provoca um enorme choque. É o desvendar da patranha do computador pessoal, que de pessoal tem tão pouco. O interessante é que Samantha, o OS One, tem que ganhar uma dimensão, uma consciência própria, para poder desvendar esta verdade a Theodore.

É também sobre como pessoas com uma sensibilidade e criatividade acima da média tendem a viver frustradas no mundo das pessoas normais. É isso que acontece com a sua única amiga real, Amy (Amy Adams), cujo marido não consegue compreender as suas concepções artísticas, não acompanha a sua sensibilidade e o seu intelecto, e por isso se divorcia dele. Neste aspecto, o filme partilha do espírito de The Secret Life of Walter Mitty, do homem que não se enquadra na sociedade porque não aceita a mediania que esta lhe propõe. Twombly é um escritor bastante talentoso e alguém que vê o mundo de uma forma bastante particular, o que torna difícil a sua relação com os outros. É isto, por um lado, que cria um infeliz desfecho para si próprio. Samantha, que recebeu todos estes inputs, e que dispõe de uma capacidade “intelectual” quase infinita, rapidamente o ultrapassa neste sentimento, e rapidamente passa a ser ela que não se consegue relacionar apenas com ele e com a sua mediania.

De certo modo, Her partilha algumas semelhanças com a clássica série Twilight Zone. Usa a mesma fórmula, ou seja, introduzir elementos de ficção cientifica para abordar temas filosóficos e para analisar características da natureza humana. Esta semelhança estende-se até ao facto de se concluir num desfecho mais ou menos trágico para o protagonista, que é vítima da circunstância em que foi colocado e de si próprio, algo típico na série. Podemos olhar para esta obra como um comentário aos perigos da tecnologia, mas devemos também ver para além disso. A tecnologia é um perigo na medida em que nos permite, com demasiada facilidade, evitar lidar com certas coisas. Como enviar cartas para os nossos entes queridos ou interagir com outros seres humanos. No caso desta história, permite a Twombly viver apenas consigo próprio, sem ter que lidar com os aspectos mais difíceis da vida real. Ao fazê-lo, nós conseguimos observar o que acontece a um homem que é uma ilha. Que não vive fora de si e para quem a sua pessoa é a única questão importante da vida.

Tentar fazer futurologia com Her é um logro. Her é a história mais actual que existe. Caminham pelo mundo milhões de Theodore Twomblys, aliás, todos nós temos algo de Tombly, em maior ou menor porção. Assim como todos nós nos sentamos a escrever cartas a nós próprios, ocasionalmente. O segredo é ter noção disso, e não nos convencermos que as cartas, ou as Samanthas, são reais. Mas não vem mal ao mundo se o fizermos com ponderação, como em tudo. A realidade é, muitas vezes, demasiado desinteressante e dura, e algum make believe é necessário. É para isso, também, que existe o cinema, uma carta de nós para nós próprios que fingimos ser escrita por outra pessoa, with kisses on the bottom.

O Lobo de Wall Street

wolf_wall_street3The Wolf of Wall Street é o Apocalypse Now dos filmes sobre a alta finança. Sim, eu tenho noção da comparação que acabo de fazer e, não, não tem a ver com a duração relativamente longa de ambos (cerca de três horas, mas tamanho não é documento). E, tudo bem, não há um Full Metal Jacket nesta analogia. Existem bons filmes, como Margin Call ou Wall Street (Cosmopolis é uma lacuna que ainda tenho que colmatar), mas são filmes absolutamente banais, com um enorme esforço em parecer tecnicamente rigorosos e com muito pouca capacidade de captar o espírito da realidade que abordam. O Lobo de Wall Street não, é o contrário disso.

É impressionante como é Scorsese, e não um rookie com provas a dar, a fazer este filme. Como, depois de Raging Bull ou Taxi Driver, arrisca tanto é admirável. O filme tem muito por onde dar mau resultado, as cenas com drogas e prostitutas parecem excessivas e, para quem espera que os filmes sejam uma representação rigorosa da vida real, pouco credíveis. Mas desengane-se quem julgue que são gratuitas. Tudo é absolutamente fundamental para a integridade da obra. Porque tudo contribui para que entremos naquele ritmo frenético do capitalismo financeiro em tempos de euforia. As drogas e as prostitutas são consumo que se esgota tão rapidamente como se realizam transacções de penny-stocks em bolsa. O dinheiro gasta-se de forma tão absurda e moral como se ganha.  Não se pensa, faz-se. A seguir a uma golpada vem outra. Querer sempre mais, não interessa do quê. E tudo, da câmara às interpretações dos actores, nos envolve nisto. Neste êxtase e nesta loucura de nem sequer ter tempo suficiente para se gastar o que se tem, mas querer sempre ter mais. O reino do já, do imediato.

Scorsese consegue apresentar-nos a mestria que só alguém com muitos anos a fazer filmes consegue, combinada com a frescura que, à partida, só um novato a dar os primeiros passos conseguiria ter. Os jogos que faz, colocando o personagem principal a dirigir-se directamente à audiência, a apresentação do factual e do contra factual ou colocando-nos a ouvir os pensamentos dos personagens, contribuem para que estejamos perante um belo trabalho. O elenco é tão bom que parece mentira, com interpretações impagáveis de Jonah Hill e Matthew McConaughey. DiCaprio aparece como nunca, com uma entrega total ao papel de milionário degenerado, dando o ritmo ao filme. A cena em que se arrasta para o carro depois de ficar paralisado por um Quaalude é absolutamente brilhante e é daquilo que grandes actores são feitos.

Inteligentemente, a narrativa é apresentada de uma forma que, não sendo amoral, escapa ao moralismo. Não se glorifica o estilo de vida do personagem interpretado por Di Caprio, mas também não se faz dele uma vítima, nem sequer se tentam arranjar desculpas de forma alguma ou interpretar o seu comportamento. De resto, como diria Susan Sontag, a arte não trata da análise, é uma prova, completa e formal, de que algo é o que é.  E o filme cumpre magistralmente este papel. Seria muito fácil fazer do protagonista uma espécie de Gordon Gekko, uma pinhata em que bater para expurgar os males que vêm ao mundo sempre que Wall Street se excede em ganância. Só que não se trata de moralizar, mas de mostrar a história de um homem que vive de acordo com uma ideia, de forma coerente, até ao fim. Neste aspecto, não deixo de fazer um paralelo com a forma como Fellini conta a história de Giacomo Casanova, recorrendo ao mesmo exagero gradualmente crescente, de forma a fazer-nos experimentar a evolução do personagem  enquanto vive de acordo com uma concepção bastante particular do seu propósito. Não tenho dúvidas de que, algures no consciente ou no sub-consciente de Martin Scorsese, há uma inspiração no Casanova de Fellini.

E esse propósito, para Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), é ser um milionário. O dinheiro é um fim, e não um meio. As drogas são uma forma de lidar com o ritmo avassalador da actividade, e uma forma de justificá-la. Porque o dinheiro resolve tudo, tudo se compra. Cocaína para acordar, comprimidos para as dores de costas e, claro, tudo o resto para não se confrontar com o facto de qualquer passo em falso nos poder enviar para a prisão e para a ruína. Quando confrontado com agentes do FBI que recusam um suborno, Belfort (DiCaprio) fica atónito e furioso, porque isso choca com tudo o que sabe sobre as pessoas: que toda a gente quer dinheiro. Aliás, existe uma cena particularmente engraçada no filme, quando o personagem diz aos seus sócios que toda a gente quer ficar rica – e depressa – e um dos seus interlocutores contesta com o exemplo dos Amish e dos “budas” (expressão do personagem, não minha), o que o leva a ficar perplexo, é algo que não cabe na concepção de “pessoa normal” – sua e, secretamente, do espírito dos tempos. Toda a gente quer ficar rica e, explorando isso, Jordan Belfort torna-se um milionário, casa com uma modelo e glorifica um estilo de vida opulento e hedónico. Porque quanto mais a sua riqueza for cobiçada, mais ambição existe para rentabilizar.

Desde Melies que o cinema é uma arte do engano, da ilusão. O Lobo de Wall Street encaixa nessa concepção, o espectador é iludido, enganado e desenganado várias vezes durante o filme. Outra coisa não poderia acontecer. A ilusão é o tema central desta obra. É a forma como a ilusão tem um papel tão importante nas nossas vidas. É a ilusão de que é possível ficar muito rico com pouco esforço que permite a Belfort seduzir os seus clientes. É a ilusão de que chegar ao topo está ao alcance de qualquer um que seduz o batalhão de funcionários que trabalham para si. E, acima de tudo, é a ilusão de que ter dinheiro e gastá-lo é a máxima satisfação. Belfort é vítima e autor dessa ilusão que cultiva nos outros e que o faz continuar e querer sempre mais. No fim, tudo remonta à venda da caneta, a criar a necessidade. Mas o engano é pensar que podemos sempre enganar outro, e que a voracidade dos nossos desejos e ilusões não irá um dia prestar contas connosco.